12.8.12

Os Cinemas de São Paulo III – Praça da Sé e Região


Seguindo a roda dos cinemas, vou falar agora da região da Praça da Sé ou do centro velho como se dizia na época.

Na Rua Libero Badaró existia e ainda existe a “Casa Godinho” famosa mercearia onde são vendidos produtos da mais fina qualidade, bacalhau, pães, azeitonas, etc. Ocupa um dos armazéns do “Prédio Sampaio Moreira” e está lá desde a construção do prédio em 1924 (antes ficava na Praça da Sé desde 1890). Provavelmente a Casa Godinho é o comércio mais antigo da cidade. O Prédio Sampaio Moreira foi o prédio mais alto de São Paulo, só perdendo para o Prédio Martinelli em 1929.



Não poderia deixar de falar do “Prédio Martinelli” que infelizmente naquela época encontrava-se bastante deteriorado, põe deteriorado nisso. Eu trabalhava no Banco Santander, na primeira investida no Brasil onde foi meu primeiro emprego. Em 1964 eu ia numa casa de câmbio que ficava em uma das entradas do prédio, ao nível da rua, com grandes quantias em dinheiro para adquirir dólares a mando dos executivos do banco. Naquela época já existiam assaltos sim, mas não ao nível de hoje. O Sindicato dos Bancários ficava no 7º andar e era muito difícil encontrar um elevador que funcionasse, o jeito era subir por escada mesmo, ocorre que era um local perigoso, ocorreram vários assassinatos ali e no prédio encontravam-se as mais diversas atividades, até uma escola que ensinava a roubar carteiras a polícia encontrou por lá, havia inúmeros bares em todos os andares e no final da década de 70 foi interditado e reformado, hoje é ocupado por diversos setores da nossa gigantesca e operosa municipalidade, entre outras atividades.



Na Rua São Bento nº 385 havia uma papelaria chamada “Rosenhain”. Vendiam material técnico para desenho e pintura, lápis da marca “Koo-i-Noor” importados da Tchecoslováquia em caixas de até 60 cores, esquadros de acrílico milimetrados em tamanhos grandes e banquetas e pranchetas de desenho muito robustas. Existia uma filial na Av. São Luiz.  Com a proibição de importações ordenada pela Ditadura Militar, teve que fechar as portas porque naquela época não havia produção nacional da maioria dos itens que comercializava.

Encadernadora Kristina – Rua José Bonifácio 176 cj 9 – Com o fechamento da loja de artigos para encadernadores da Rua Capitão Salomão, passei a comprar papelão, percalux e outros materiais na Encadernadora Kristina. Sr. Carlos e seu irmão eram os proprietários. A Entrelivros eu só fundei em 1991, então me abastecia lá. Um dia fui lá comprar dois metros de percalux que era vendido enrolado com 1,30 de largura como é até hoje. Dois metros formavam um rolo fininho que eu carregava pela José Bonifácio estribado no ombro e com a outra ponta baixa na minha frente, então acho que me distraí com alguma coisa e sem querer enfiei a ponta do rolo no meio das pernas de uma mulher que ficou muito brava e apesar das minhas desculpas armou uma gritaria tremenda na rua, exigindo a presença da polícia. O jeito foi fazer que não era comigo, misturei-me na multidão e a passos largos subi a Rua Paulo Egídio em direção ao Largo São Francisco, eu já ia longe e ainda ouvia os gritos dela.
Ainda na Rua José Bonifácio nº 82 resiste a “Lojas Americanas” enorme, atravessa até a Rua Direita. É uma loja que vende de tudo, perfumaria, roupas, utilidades domésticas, brinquedos, eletrodomésticos, ferramentas, papelaria, etc. Eu quando era criança adorava entrar nessa loja e sair em outra rua, para mim aquilo era como uma viagem no tempo, impossível de ser feita, mas eu conseguia.

Na Rua São Bento 74 havia a “Casa Califórnia” onde se podia comer o melhor sanduiche de linguiça que provei até hoje, Ocorre que em outro número há uma lanchonete usando o mesmo nome, não tem sanduiche de linguiça e segundo Eduardo Carvalho, bisneto do fundador Sr. Manoel Teixeira de Carvalho que fundou a casa em 1924, nada tem a ver com aquela Casa Califórnia que fechou as portas no início da década de 80 devido à deterioração do centro.

Também na Rua São Bento 514 ficava a “Leiteria Pereira” casa fundada em 1884, onde pode-se almoçar uma comida bem preparada ou a qualquer hora do dia um lanche dos bons. Hoje continua com o novo nome “Guanabara São Bento”.

Havia também uma loja “Mappin” nesta rua no nº 230, não tão cheia como a matriz, mas com a maioria dos itens.

No Largo do Café nº 18 numa pequena portinha fazia-se o melhor hot-dog de São Paulo, estava lá desde os anos 40, passei lá há dois anos e verifiquei que ainda estava lá, só a marca da salsicha havia mudado para uma mais comercial, mas continuava bom. Novamente passei lá há alguns meses e verifiquei que foi incorporado ao bar e restaurante da esquina, entrei e saí, perdi a fome.

Continuando na Rua São Bento nº 230 não posso esquecer da “Botica Veado de Ouro” farmácia de manipulação  tradicional que está lá desde o início do Sec. XX, com muita fama, porque naquela época eram bastante raras as farmácias de manipulação..

Também na Rua São Bento, esquina com a Praça Patriarca havia a “Casa Fretin” que vendia óculos, artigos cirúrgicos e o que quase ninguém sabia, uma seção de livros com volumes de ocultismo muito completa com edições nacionais e importadas.



Na ponta do Viaduto do Chá está o “Edifício Conde Luiz Eduardo Matarazzo” que foi construído para abrigar a sede das “IRFM Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo” foi projetado pelo Arquiteto italiano Marcello Piacentini a mando do Empresário Francisco Matarazzo Jr. O Projeto tem inspiração fascista devido à ligação do arquiteto com o regime de Mussolini. O mármore que o reveste veio todo da Itália. Sediou os escritórios do conglomerado fabril Matarazzo desde a sua inauguração nos anos 30 até 1972. Entrou como pagamento de dívidas ao Banespa e sucessivamente acabou ficando com a Prefeitura de São Paulo, que desde 2004 fez dele sua sede.



Na Praça Patriarca nº 84 durante muitos anos funcionava a “Casa São Nicolau”  que era uma loja de presentes e utilidades domésticas. Ainda tenho um sininho que ganhei lá de um Papai Noel, quando era criança.

Na esquina da Rua Libero Badaró ficava o “Othon Palace Hotel”, com seu “Chalet Suisse” no último andar, com uma bonita vista para o Anhangabaú. Foi lá que conheci o fondue, que naquela época era servido com queijos importados, uma vez que não existiam Ementhal ou Gruyere nacionais, por isso era um prato muito caro, era para ocasiões muito especiais como para impressionar alguma rabiteza. O prédio encontra-se fechado sem uso mais uma vez devido à deterioração do centro. Há um projeto da Prefeitura de São Paulo para integra-lo ao edifício sede da municipalidade, instalando lá algumas secretarias e consta que será feito um túnel por baixo da rua para sua melhor integração. não sei a quantas anda a realização deste projeto, mas quando se trata de desperdiçar dinheiro público as coisas até costumam andar rápido.



Na Rua Direita esquina com a Quintino Bocaiuva ficava a “Casa Bevilaqua” vendiam partituras, livros de música e discos LPs. Quem me atendia era o vendedor Sr. Prado, sempre muito atencioso, quando eu chegava ele já tinha separado o que eu costumava levar.

Na Rua Quinze de Novembro esquina com a Rua Gen. Carneiro havia uma loja de balas, bombons e confeitos da marca “Sonksen” cuja fábrica ficava na Rua Vergueiro 310. Faziam vários tipos de chocolates, doces e balas, mas o produto que mais fazia sucesso eram as balas de cevada que eram vendidas em uma latinha oval (havia também uma cilíndrica maior). A situação financeira da indústria não era das melhores, eram produtos finos e caros se comparados com a concorrência. Um dia nos anos 80, o que restou da  fábrica pegou fogo, nada sobrou e nunca mais tivemos as balas de cevada.



Na Rua Roberto Simonsen havia uma loja “Argênzio”  que comercializava queijos de marca própria e de outros fabricantes, vinhos, bacalhau, e iguarias diversas. Havia uma filial do lado esquerdo da Catedral Metropolitana entre a Praça da Sé e Praça João Mendes e alguns supermercados em bairros onde havia um atendimento diferenciado na venda de queijos e frios. As lojas fecharam, a fábrica de queijos trocou de donos, os supermercados, passaram a fazer parte das grandes redes pasteurizadas e homogeneizadas.

Cine Texas – Rua Roberto Simonsen 88 – Passei várias vezes na porta deste cinema mas nunca entrei:  Eu nunca gostei de cinemas que passavam dois filmes na mesma sessão, geralmente pelo menos um deles era muito ruim e às vezes até os dois se enquadravam nesta característica.

A “Catedral Metropolitana” merece sempre uma visita, com sua imponência e suas gigantescas portas confeccionadas pelo “Liceu de Artes e Ofícios”. É consagrada a Nossa Senhora da Assunção e o início de sua construção se deu em 1913 com projeto do arquiteto alemão Maximilian Emil Hehl. A construção tem predominância do estilo neogótico, inspirada nas grandes catedrais medievais da Europa. Mosaicos, esculturas e mobiliário foram trazidos de navio da Itália. Foi inaugurada em 1954 com as torres ainda inacabadas, sendo terminadas em 1967. Em 2001/2002 foi restaurada seguindo-se as plantas originais de 1912. Abriga um órgão “Balbiani & Rossi” construído em Milão em 1954, sendo restaurado em 1996/7. É o maior órgão de tubos do Brasil.



Na esquina da Rua Barão de Paranapiacaba ficava o “Bar e Pastelaria Modelo que citei na postagem da Praça da Sé. Ainda está lá com outro nome, mas infelizmente com as várias trocas de donos e reformas não tem mais aquele pastel de palmito que eu gostava quando era criança com meu pai e que sobreviveu até há bem pouco tempo. Passei lá e constatei que o que há agora é um pastel de palmito igual a tantos outros que existem em São Paulo.

Na Rua Barão de Paranapiacaba ficava a “Papelaria São Miguel” que tinha o maior sortimento de penas para quem fazia caligrafia. Era um balcão de vidro inteiro com uma quantidade enorme de penas de ferro, latão, bronze, etc.

Havia uma loja de tecidos chamada “R. Monteiro” na Rua Quintino Bocaiuva nº 71 e várias filiais espalhadas pelo centro, onde eu comprava tecido para mandar confeccionar ternos, sim eu trabalhei muito tempo de terno e gravata. Os preços eram bons e só trabalhavam com tecidos de ótima qualidade que eu entregava ao “Sr. Monteiro” (nada tinha a ver com a loja), alfaiate português amigo de meu pai que morava na Rua Padre Antônio José dos Santos, no Brooklin e fez inúmeros ternos para mim com extrema perfeição.

Na Praça da Sé havia o restaurante “Juca Pato” no térreo do “Edifício Wilson Mendes Caldeira”. Tinha um balcão com cadeiras giratórias que dava várias voltas no salão muito iluminado com lâmpadas HO. Ficava aberto a noite inteira numa época que eram raros os locais 24 horas. Saia-se do cinema na seção da meia noite lá pelas 2:00 horas e era possível saborear um lanche às 3:00 da manhã acompanhado de uma Brahma que era a cerveja mais solicitada na época. Este edifício foi o primeiro a ser implodido no Brasil, no início da década de 70 para a construção da Estação Sé do metrô.








Cine Santa Helena – Praça da Sé 259 – O cinema ficava no Palacete Santa Helena e foi inaugurado em 1925. Estive lá no final da década de 60 e estava bem decadente, mas a sala de exibição era muito bonita. Foi demolido em 1971 para a construção da estação Sé do metrô.

Cine Mundi – Era o porão do Cine Santa Helena. No final da década de 60 infelizmente se o cinema principal estava decadente, dá para avaliar como se encontrava o porão.



Teatro Paramount – Av. Brigadeiro Luís Antônio 411 – Era lá que ocorriam os Festivais de MPB de 1964 a 1968 e grandes shows com Tom Jobim, Nara Leão, Jair Rodrigues, Elis Regina, Chico Buarque e outros que não me vem agora à memória. Com o AI 5 da ditadura em 1968, acabaram-se os shows e festivais, devido à exigência de censura prévia doravante. Em 1969 foi parcialmente destruído por um incêndio, sendo restaurado posteriormente levando o nome do patrocinador que levou adiante a reforma: “Teatro Abril”. É um teatro com uma excelente acústica e um palco de grandes proporções.



Cine Joia – Praça Carlos Gomes 82 – Lá passavam filmes japoneses da Toho, teve uma época  que eu vi muitos filmes japoneses na região da Liberdade.



Casa Espiral da Música – Era uma loja de discos que ficava quase em frente ao Cine Joia. Tinham um sistema de vendas original: Na prateleira ao alcance do público, estavam só as capas do disco com um papelão dentro com um código marcado. Se você se interessou pelo disco ia ao balcão e uma funcionária muito sorridente e prestativa te mostrava o disco em perfeitas condições e punha-o para ouvir se fosse do seu interesse. Comprei lá muitas raridades. Haviam várias filiais na região da Liberdade e uma no Viaduto Santa Efigênia.

Na próxima semana, a Parte IV – Av. Liberdade a Av. Jabaquara

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7 Comments:

At 8:27 PM, Anonymous Anônimo said...

Havia um cinema na rua Libero Badaró, se me lembro..e lá eu vi o filme italiano "O transplante" com Giancarlo Gianini, começo dos anos 70....não me lembro do nome do cinema, creio que era no terro do
edificio Conde de Prates..
o Cine Mundi, até onde me lembro,
tinha uma entrada lateral ao cine
Santa Helena. Era pequeno e com
colunas que atrapalhavam a visão.

 
At 2:05 PM, Anonymous Anônimo said...

Cinemas são antros de perdição e degradação da família, mas você não deve saber o que é uma, por isso passou uma boa parte da sua inútil vida frequentando esses lugares. Espero que você não tenha filhos, porque passará a eles um péssimo exemplo e achará normal eles frequentarem cinemas. Irresponsável

 
At 7:41 PM, Anonymous Anônimo said...

aki pa tu ai em cima oh

_)_

 
At 12:47 PM, Anonymous Anônimo said...

Corruptos e religiosos insanos estão em toda parte, apagar a memória do povo é a intenção desses imbecis, assim fica mais fácil manipular a opinião de uma legião de gente desprevenida e burra!

 
At 4:34 PM, Anonymous Marcos Túlio said...

Apenas um detalhe: a Pastelaria Modelo originalmente ficava na esquina da rus Boa Vista com a Praça de Sé. A dupla pastel de palmito+caldo de cana era minha preferida. Depois mudou para o endereço na matéria. Excelente postagem pela riqueza de detalhes.

 
At 7:33 PM, Blogger Luis Ferreira de Freitas said...

E onde ficava a antiga sede da Matarazzo? Não essa aí do viaduto do Chá. Ficava na Praça do Patriarca. Alguém tem foto do edifício?

 
At 11:29 AM, Blogger marcos daniel said...

Nota mil ,ate co.partilhdi n face pena alguem solicitar remover fotos vc edta de parabens

 

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